Detalhes do Projeto de Pesquisa

INVESTIGAÇÕES SOBRE O POTENCIAL ARQUEOLÓGICO NAS SERRAS DE MANGABA, BONITA E MODESTO, PALESTINA DE GOIÁS

Dados do Projeto

1127

INVESTIGAÇÕES SOBRE O POTENCIAL ARQUEOLÓGICO NAS SERRAS DE MANGABA, BONITA E MODESTO, PALESTINA DE GOIÁS

2025/1 até 2028/2

ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES

PATRIMÔNIO CULTURAL

Cultura Material e paisagem

SIBELI APARECIDA VIANA

Resumo do Projeto

Este projeto integra um projeto maior intitulado "Patrimônio Arqueológico da Região Sudoeste de Goiás" (VIANA, 2006, 2011), que investiga as dinâmicas da ocupação humana em tempos antigos na região de Palestina de Goiás e áreas adjacentes do sudoeste de Goiás. Nosso objetivo é ampliar o escopo deste projeto guarda-chuva, concentrando-nos na expansão e fortalecimento dos dados já obtidos. Trabalharemos a partir de uma abordagem interdisciplinar, buscando as complexas interações entre ambiente e sociedade, considerando as tensões temporais e espaciais. Faremos uso da noção de humanidades paleoambientais (HUSSAIN; RIEDE, 2020) e da literatura que conecta estudos arqueológicos e paleoambientais, que vem se desenvolvendo na esteira do "environmental turn". Especificamente para o contexto de Palestina de Goiás, buscaremos compreender seus habitantes do passado como seres intrinsecamente ligados à Terra e construiremos narrativas co-produzidas por humanos e não-humanos, abrangendo artefatos tecnológicos, ambientes naturais, animais e condições climáticas.

Objetivos

OBJETIVOS

  1. Objetivo Geral:

          O objetivo geral do presente projeto de pesquisa é avançar na produção de uma narrativa histórica fortemente subsidiada por dados arqueológicos que coloque em primeiro plano a própria região de Palestina de Goiás como personagem principal. Visamos propciar uma melhor compreensão sociocultural sobre as alteridades e ancestralidades humanas e não-humanas que, em suas justaposições e sinergias, coproduziram aquela paisagem. Esse objetivo será atingido por meio do desenvolvimento de três pontos principais: 1) realizar o levantamento arqueológico à margem esquerda da bacia do rio Caiapó, na região de Palestina de Goiás, com foco nas zonas onde se encontram as escarpas rochosas da Formação Ponta Grossa e Aquidauana; 2) testar áreas de interesse arqueológico diagnosticadas previamente pelos estudos de mobilidade humana, levantando hipóteses sobre rotas de deslocamentos das pessoas ao longo do tempo; 3) implementar um programa de digitalização tridimensional de artefatos provenientes de coleções arqueológicas da região, visando não apenas preservar digitalmente o patrimônio, mas também facilitar sua análise e estudo por parte da comunidade acadêmica e, ao mesmo tempo, viabilizar amplo acesso ao público em geral.


  1. Objetivos específicos:
  2. Realizar o levantamento arqueológico sistemático à esquerda do rio Caiapó, nas zonas de altimetria elevada (> 700 m) e encostas, da Formação Ponta Grossa e Aquidauana, especificamente nas serras da Mangaba, Modesto e Bonita, por meio de prospecções intensivas (sistemáticas e estratificadas) em abrigos e áreas abertas, visando a localização de sítios pré-coloniais;
  3. Realizar intervenções assistemáticas, amostrais superficiais e subsuperficiais, em zonas geomorfologicamente estratégicas, com o propósito de identificar e documentar vestígios arqueológicos relevantes;
  4.  Testar e ampliar modelos de mobilidade construídos quantitativamente através de Sistemas de Informação Geográfica-SIG e Modelação Baseada em Agente-MBA e qualitativamente por meio de investigações de hodologia arqueológica, conforme proposto em estudo em andamento por Ramos (2023), a fim de identificar recorrência (ou polarização) perceptível nas escolhas de trajetos, direções e sentidos orientados pelas comunidades arqueológicas influenciadas pelas características das rugosidades geográficas apreendidas no limiar do campo visível (o horizonte).
  5. Identificar nichos ambientais com potencial polínico, e fragmentos de madeira carbonizados (carvões) para ampliar os estudos de antracologia, com o propósito de reconstituir a evolução da paisagem na região;
  6. Realizar intervenções amostrais em superfície e subsolo nos novos sítios que eventualmente sejam encontrados, realizando levantamento com Georadar, obtendo amostras para datações arqueológicas, caracterizando a estratigrafia dos sítios e identificando os processos de formação dos mesmos;
  7. Realizar e processar a documentação fotográfica e filmica de figuras rupestres presentes nos novos sítios arqueológicos encontrados na região, visando seu registro e caracterização preliminar;
  8. Revisitar os sítios arqueológicos e a área circundante de Doverlândia, visando atualizar e complementar as informações disponíveis sobre esses locais, visando compreender suas relações com os contextos de Palestina de Goiás;
  9. Inventariar e analisar os artefatos arqueológicos coletados no curso do levantamento;
  10. Desenvolver um sistema de gestão de qualidade para otimizar os processos de digitalização tridimensional (3D).
  11. Produzir material educativo por meio das peças escaneadas tridimensionalmente e resultados disponíveis, a ser oferecido às escolas do Ensino Fundamental e Ensino Médio da região de Palestina de Goiás e Dorverlândia, promovendo a disseminação dos conhecimentos obtidos e estimulando a preservação do patrimônio cultural.

Justificativa

Este projeto de pesquisa surge como extensão de um projeto mais amplo, “Patrimônio Arqueológico da Região Sudoeste de Goiás” (VIANA, 2006, 2011), que tem como objetivo principal investigar as dinâmicas da ocupação humana em tempos pretéritos na região de Palestina de Goiás e áreas adjacentes, localizadas na região sudoeste do estado de Goiás. Nosso objetivo é avançar em algumas frentes de pesquisa para ampliar o escopo desse projeto guarda-chuva, especialmente para fortalecer e ampliar dados gerados até então no que diz respeito à cronologia dos sítios arqueológicos e à compreensão das relações inter-sitios. 

Trabalharemos a partir de uma abordagem interdisciplinar buscando focar nossa atenção nas tensas e instáveis interações entre clima, ambiente e sociedade – levando em consideração as incertezas inerentes ao tratamento de diferentes escalas espaçotemporais (DEGROOT et al. 2021). Nesse sentido, faremos uso da noção de humanidades paleoambientais (paleoenvironmental humanities – pEH em inglês) proposta por Hussain e Riede (2020), além de nos apoiarmos em uma crescente bibliografia interessada no vínculo entre estudos arqueológicos e estudos paleoambientais que vêm se desenvolvendo na esteira da denominada “environmental turn” (HUSSAIN; RIEDE, 2020).

De acordo com Hussain e Riede (2020), o estudo das humanidades paleoambientais permite desenvolver análises para além dos reducionismos ecológicos, franqueando terreno teórico-metodológico para o desenvolvimento de um discurso ambientalmente relativístico que fomenta novas vias interpretativas e comparativas para o exame das relações humanos-clima-ambiente. Evidentemente, muitas das relações humano-clima-ambiente passadas são, na falta de registros escritos, unicamente acessíveis por meio da arqueologia. O estudo das humanidades paleoambientais, assim, 

[...] permite o estudo de dinâmicas correlativas e causais de longo prazo, tanto no domínio humano como no climático, e o exame de aspectos como mudanças nas relações de poder, trade-offs, restrições e interdependências entre os dois, bem como entre domínios mediadores, tais como como biodiversidade. O compromisso, no entanto, não é apenas documentar as sincronias e correlações necessárias na interface homem-clima, mas também expor desfasamentos temporais, limiares e efeitos de feedback mostrando as complexidades de como os climas sempre moldaram mas também subdeterminaram a evolução biocultural humana e como os humanos do passado, por sua vez, se envolveram e manipularam de diversas maneiras seus ambientes climáticos e físicos. (HUSSAIN, RIEDE, 2020, p. 3-4, tradução nossa)

Voltando-nos para o contexto mais imediato do sudoeste goiano, entendemos que devemos buscar compreender os humanos que habitaram aquela região no passado como seres ligados à Terra, abrindo espaço para uma perspectiva menos compartimentalizada sobre a evolução das paisagens. Assim, as histórias profundas diagnosticadas através do escrutínio das linhagens de séries técnicas (líticas, gráficas, cerâmicas, arquitetônicas, agrobiodiversas, etc.) poderá servir como matéria-prima para uma história glocal da região (MIGNOLO, 2003). Esta última, personagem central de nossa narrativa, surge como uma coprodução de humanos e não-humanos abrangendo tecno-artefatos, ambientes, animais e climas. Para isso, nos propomos a investigar áreas até então sub-representadas ou mesmo desconhecidas em termos arqueológicos dessa região.

Esta pesquisa está em consonância com a linha de pesquisa Patrimônio Cultural e Territorialidades, do Programa de Pós-Graduação em História da PUC Goiás, e em conformidade com o alinhamento estratégico deste Programa que visa o fortalecimento da internacionalização, a intensificação e ampliação das redes inter-instituições e internacionais de pesquisa e a qualificação da base da pesquisa de seus discentes. Por meio da aplicação de metodologias inovadoras e tecnologicamente avançadas, visamos promover o desenvolvimento qualitativo e relevante da produção de conhecimento, gerando impactos positivos significativos, conforme será apresentado a seguir.


Caracterização ambiental da área

O contexto arqueológico da área de pesquisa é marcado pela presença do Bioma do Cerrado e por um relevo bem marcado e diversificado, caracterizado pelas formações da Serra da Mangaba, Serra do Modesto e Serra Bonita, que atingem até cerca de 850 metros de altitude (Figura 1). Nas escarpas rochosas dessas serras, com exceção do Modesto, próximas às bacias do Córrego do Ouro e do rio Bonito, localizam-se a maior parte dos sítios arqueológicos. Nos vales, onde o terreno é mais plano, os sítios também estão presentes, embora de forma mais dispersa. 


 Fig. 1 Mapa de modelagem com a localização dos sítios arqueológicos na região de Palestina de Goiás

Ao correlacionarmos a Geomorfologia à Geologia, tomando por referência o mapeamento realizado por Lacerda Filho et al. (2021), assim como o material cartográfico disponível, podemos observar na região a presença da Formação Aquidauana, na porção mais elevada da topografia das serras da Mangaba e Modesto, composta por rochas sedimentares clásticas e diversificadas com conglomerados, arenitos arcoseano e argilitos. Sotoposta à esta unidade sedimentar ocorre a Formação Ponta Grossa, composta por rochas sedimentares clásticas predominantemente finas representadas por siltitos, folhelhos e arenitos. Neste padrão topográfico plano podemos observar o alto da Serra da Mangaba, ainda bem preservada, e parte do alto da Serra do Modesto. Estratigraficamente e topograficamente posicionada abaixo encontra-se a Formação Furnascomposta, igualmente, por rochas sedimentares clásticas com ocorrência de arcósios e arenitos de granulação média a fina com lentes conglomeráticas. 

Os sítios do Complexo Arqueológico de Palestina de Goiás concentram-se, especialmente nas escarpas da Formação Furnas e nos relevos ondulados, com formas convexas e concavidades mais pronunciadas, que caracterizam a configuração da planície fluvial do córrego do Ouro e de seus afluentes. 

Rochas da Formação Iapó, Grupo Ivaí, afloram na base das serras, representadas por lentes de diamictitos polimíticos, com grânulos, seixos e blocos de litologias variáveis (SUGUIO, 2003). Sua ocorrência é descontínua formando unidades, às vezes, não mapeáveis mas observáveis em campo. Estas concentrações rochosas frequentemente estão associados a contextos arqueológicos, denominados pelas primeiras pesquisas de “sítios em campos de seixos” (SCHMITZ et al., 1986 VIANA et al. 2016). 


Equipe do Projeto

Nome Função no projeto Função no Grupo Tipo de Vínculo Titulação
Nível de Curso
CRISTIANE LORIZA DANTAS
Email: crisloriza@gmail.com
Pesquisador Pesquisador [professor] [mestre]
JULIO CEZAR RUBIN DE RUBIN
Email: rubin@pucgoias.edu.br
Pesquisador Pesquisador [professor] [doutor]
MARCOS PAULO DE MELO RAMOS
Email: ramos@pucgoias.edu.br
Pesquisador Pesquisador Externo [externo] [mestre]
SIBELI APARECIDA VIANA
Email: sibeli@pucgoias.edu.br
Coordenador Líder [professor] [doutor]