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MASCULINIDADE E PATERNIDADE: UMA PERSPECTIVA PSICOESPIRITUAL
2025/1 até 2028/2
ESCOLA DE FORMAÇÃO DE PROFESSORES E HUMANIDADES
GRUPO DE PESQUISA EM RELIGIÃO, CULTURA E SOCIEDADE
RELIGIÃO E MOVIMENTOS SOCIAIS
PEDRO ANTONIO CHAGAS CACERES
2.1. Objetivo Geral
. Analisar as manifestações da masculinidade em uma sociedade falocêntrica, considerando a fragilidade masculina, a violência e a paternidade em pais primíparos, a partir de uma perspectiva psíquica-espiritual.
2.2. Objetivos Específicos
A pesquisa se justifica frente ao cenário contemporâneo em que o papel do homem/pai enfrenta novos desafios, sendo que os modelos tradicionais, oriundos da cultura judaico-cristã e da cultura greco-romana, estão em crise. Todavia é preciso alertar que as tradições milenares relutam a desaparecerem. Podem sofrer rachaduras em suas couraças, mas permanecem resistentes aos câmbios atuais.
O projeto possui como ponto de partida a pressuposição de que a maioria dos homens na modernidade ocidental foi constituída/educada por uma formação informal adquirida no convívio familiar, na comunidade, na escola, no local de trabalho, nas amizades, na intimidade, enfim na cultura que lhes atravessa), a regular e controlar as expressões de emotividade e afetividade, para não demonstrar possíveis fraquezas. A incorporação de um modelo dominante que associa a racionalidade e a força física à masculinidade e as emoções afetivas e a fraqueza à feminilidade (Vale de Almeida, 1995).
A masculinidade, enquanto construção social, psíquica e cultural, é um fenômeno bastante complexo que atravessa épocas, territórios e tradições. Nosso estudo visa explorar as implicações entre masculinidade, paternidade, fragilidade, falocentrismo e violência masculina sob o prisma das influências das culturas judaico-cristã e greco-romana, na edificação da cultura ocidental. Mediante um foco voltado à dimensão psíquica-espiritual, propõe-se compreender como essas matrizes culturais e religiosas moldaram, e ainda moldam, os paradigmas do ser homem na sociedade contemporânea ocidental.
Historicamente o conceito masculinidade é deveras dinâmico, perpassando alterações que refletem nas bases sociais, econômicas e religiosas. A partir das noções virtuosas e heroicizadas da cultura greco-romana, até os preceitos espirituais e morais propagados pelas rígidas tradições judaico-cristãs, observa-se um legado marcado por tensões entre poder e vulnerabilidade, proteção e violência, autoridade e fragilidade. Estes polos antagônicos, muitas vezes interiorizadas pelos indivíduos, revelam-se tanto nos comportamentos sociais quanto nas relações interpessoais, especialmente no locus da paternidade.
A paternidade, por sua vez, ergueu-se como um elemento nuclear na discussão sobre masculinidade. Em diversas culturas a figura paterna foi e ainda é vinculada a atributos de autoridade, proteção, sustento e manutenção da existência humana (Pai-Protetor-Salvador-Herói). O símbolo paterno foi, durante séculos, interpretado à luz dos valores e expectativas culturais de cada época e ainda resiste como valor positivo, apesar das críticas inerentes aos feminismos.
Na cultura greco-romana, o pater familias simbolizava o poder absoluto no núcleo familiar, expondo um modelo de masculinidade normativo e hierárquico. Outrossim, a tradição judaico-cristã introduziu elementos de fraternidade e cuidados paternos, principalmente o cristianismo, embora também tenha reforçado o ideal de submissão e disciplina como virtudes essenciais. Esses aspectos, frequentemente carregados de ambiguidades, contribuíram para a formação de subjetividades masculinas atravessadas por demandas conflitantes: ser forte, mas também sensível; ser protetor, mas também frágil.
Para além, é importante reconhecer o papel da violência como componente estruturante da vivência masculina, em particular nas sociedades marcadas por influências das culturas greco-romana e judaico-cristã. A violência foi, historicamente, legitimada e utilizada como recursos em contextos de guerras, punições ou defesa da honra masculina. Em muitos momentos, interpretada como um atributo intrínseco à virilidade fálica.
Esse fenômeno, sem embargo, não pode ser apartado de uma dimensão de fragilidade subjacente: em inúmeras situações o homem que recorre à violência o faz como resposta à incapacidade de lidar com conflitos emocionais, sexuais, existenciais, sociais e/ou espirituais, entre outros. Logo, a, envergonhada, fragilidade masculina, habitualmente oculta sob diversas camadas de imposições e silenciamentos, erguesse como uma chave interpretativa para compreender a relação entre masculinidade e violência.
Em síntese, a dimensão psíquica-espiritual da masculinidade é um campo ainda diminutamente explorado, mas de elevada relevância para ampliar as discussões sobre a temática. Tanto a tradição greco-romana, quanto a judaico-cristã ofereceram arquétipos e narrativas que influenciaram significativamente a edificação dos valores masculinos. As noções de enfrentamento da dor, do sofrimento e da morte como sacrifício, da redenção como vitorias sobre os males do mundo, a virtude como máxima alcançada e a transcendência como meta conquistada moldaram as experiências interiores e espirituais dos homens influenciados por estes arcabouços culturais, estabelecendo padrões de comportamento e autoimagem que permanecem, em certa medida, vigentes no universo ocidental.
Diante do exposto, essa pesquisa almeja explorar as interseções constituídas entre os aspectos históricos, sociais, culturais, psíquicos e espirituais (religiosidade) da masculinidade, frente a paternidade de pais primíparos, procurando lançar ares renovados sobre as contradições e potencialidades inerentes à experiência masculina de ser pai.
Ao situar a discussão em um contexto multidisciplinar, almeja-se contribuir para o entendimento das dinâmicas que sustentam as relações de gênero, os envolvimentos afetivos/dissidentes/conflituosos entre pais e filhos, a construção e desconstrução do modelo de família tradicional, a violência como força (masculinidade) e a fragilidade como fraqueza (feminilidade), na contemporaneidade. Abrindo espaço para reflexões e transformações no campo da psicanálise, da psicologia, da filosofia e das ciências humanas e sociais.
Sigmund Freud inaugurou, no final do século XIX, uma nova abordagem sobre a mente humana, que revolucionou a forma como os ocidentais observavam e abordavam os comportamentos psíquicos dos indivíduos, suas patologias mentais, traumas, neuroses e psicoses. Essa nascente ciência, em seu universo teórico e clínico, ofereceu uma compreensão profunda e revolucionária sobre os processos psicológicos inerentes às experiências humanas.
Entre os conceitos centrais da psicanálise, as noções de neurose obsessiva e paranoia destacam-se como categorias que elucidam dinâmicas psíquicas específicas. Quando relacionadas à experiência da paternidade em pais primíparos, essas estruturas psíquicas podem trazer relações significativas para a compreensão dos desafios emocionais, relações familiares, sociais e os ajustes psíquicos necessários nesse período de transição e novidade.
A neurose obsessiva é um tema complexo, muito estudado pela psicanálise, que se manifesta por meio de pensamentos intrusivos, aqueles que parecem invadir nossa mente sem pedir licença, ruminações constantes, compulsões, que são atos repetitivos que a pessoa sente necessidade de realizar, e conflitos internos profundos ligados a sentimentos de culpa e à necessidade de controle. Freud, em sua obra 'Notas sobre um caso de neurose obsessiva' (1909), explorou como esse quadro frequentemente se relaciona com angústias inconscientes, derivadas de sentimentos ambivalentes e conflitos edipianos que não foram devidamente elaborados.
Com a chegada do primeiro filho, é natural que os pais se sintam sobrecarregados pela responsabilidade de cuidar de um recém-nascido. Essa nova fase traz consigo um turbilhão de emoções e preocupações, e para os pais de primeira viagem, os chamados "primíparos", essa intensidade pode ser ainda maior.
Imagine a cena: um pequeno ser totalmente dependente de você, e a responsabilidade de garantir que ele esteja seguro, saudável e feliz. É compreensível que pensamentos obsessivos comecem a surgir. A preocupação constante com o bem-estar do bebê, desde a temperatura do banho até a qualidade do sono, se mistura com uma autocrítica implacável: "Será que estou fazendo tudo certo? Será que sou um bom pai?".
Essa autocobrança, somada a vastidão de novas tarefas e à privação de sono, pode gerar um nível altíssimo de ansiedade e estresse. Os pais podem sentir uma necessidade quase incontrolável de monitorar cada detalhe, de controlar o ambiente e todos os processos ligados à criação do filho. Querem ter certeza de que tudo está perfeito, dentro dos conformes.
No entanto, essa busca incessante por controle pode acabar tendo um efeito contrário. A dinâmica familiar pode ser afetada, gerando tensões e até mesmo conflitos com o cônjuge. Afinal, a parceria e o apoio mútuo são fundamentais nesse momento. É importante lembrar que ninguém nasce sabendo ser pai ou mãe, e que os erros e acertos fazem parte do aprendizado.
Em resumo, a chegada do primeiro filho é um período de grande transformação e aprendizado. É fundamental que os pais se permitam sentir as emoções, busquem apoio e compreensão, e lembrem que o mais importante é oferecer amor e cuidado ao bebê, sem se cobrar excessivamente.
A paranoia, por outro lado, caracteriza uma organização psíquica marcada por ideias delirantes, desconfiança e uma postura defensiva em relação ao mundo externo. Segundo Freud, em "Neurose e Psicose" (1924), a paranoia pode ser entendida como uma tentativa de defesa contra desejos inconscientes e conflitos internos. No contexto da paternidade primípara, pais com traços paranoides podem interpretar situações cotidianas envolvendo o filho como ameaçadoras, demonstrando desconfiança em relação a profissionais de saúde, familiares ou outros cuidadores. Essa atitude pode levar ao isolamento social e a dificuldades em compartilhar as responsabilidades parentais, aumentando a sobrecarga emocional.
Do ponto de vista psicanalítico, a paternidade é um evento que mobiliza profundamente o inconsciente. A chegada de um filho reativa conteúdos infantis nos pais, como experiências passadas de cuidado recebidas de seus próprios pais e conflitos edipianos. Para pais primíparos com tendências à neurose obsessiva ou à paranoia, esses aspectos inconscientes podem se manifestar de forma mais intensa, influenciando as dinâmicas emocionais e os relacionamentos. A angústia de ser um bom pai pode tanto despertar conteúdos inconscientes reprimidos quanto servir como um catalisador para a elaboração desses conflitos, principalmente quando há apoio emocional ou acompanhamento psicoterápico.
A análise desses conceitos no contexto da paternidade primípara ressalta a importância de uma perspectiva psicanalítica para os desafios emocionais enfrentados por pais nesse momento crucial. O suporte terapêutico pode oferecer um espaço para a elaboração de conflitos inconscientes, promovendo uma maior compreensão das demandas psíquicas da paternidade e o desenvolvimento de formas mais saudáveis de se relacionar com o filho e com o cônjuge. Dessa forma, a psicanálise não só oferece uma base teórica para entender esses fenômenos, mas também contribui para intervenções clínicas que beneficiam a saúde mental dos pais e da família como um todo.
Nome | Função no projeto | Função no Grupo | Tipo de Vínculo | Titulação Nível de Curso |
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PEDRO ANTONIO CHAGAS CACERES
Email: acaceres@pucgoias.edu.br |
Coordenador | Pesquisador | [professor] | [doutor] |